Entrevista Exclusiva com Pedro Muffato

Pedro Muffato (8)Aos 72 anos, Pedro Muffato se renova a cada etapa da Fórmula Truck e mostra um exemplo de amor ao esporte que contagia aos que conhecem sua história no automobilismo que teve início na tarde do dia quatro de dezembro de 1966, em um circuito de rua improvisado na área central de Cascavel aceitando um convite do amigo Willy Tien. Naquele dia, Muffato formou com o amigo uma dupla que comandou o Simca número 32.

Depois de passar por várias categorias ele ingressou na Fórmula Truck, categoria que surgiu em 1996,  no dia 20 de agosto de 2000. Com 49 anos no automobilismo, esse londrinense de nascimento acaba se confundindo com a própria categoria que decidiu abraçar.

Pedro Muffato (3)Pedro Muffato tem uma vitória, conquistada no ano de 2006, no autódromo Virgílio Távora (Eusébio-CE), e subiu ao pódio em  20 ocasiões.

O site Carros e Corridas apresenta agora uma entrevista, exclusiva, com Pedro Muffato. Em um papo franco, ele respondeu as perguntas elaboradas pelo jornalista Robério Lessa e mostra toda sua personalidade quando faz críticas à categoria que atua e expõe seu ponto de vista em questões como formação de novos pilotos e atuação dos comissários desportivos.

Acompanhe a entrevista:

Pedro Muffato (0)Carros e Corridas – Eu gostaria de iniciar a nossa entrevista falando sobre o seu início na Fórmula Truck. Queria saber como foi ter recebido o convite do Aurélio Batista Félix, principalmente porque você voltava a pilotar depois de um acidente na Fórmula Três. O que passou na sua cabeça naquele momento?

Pedro Muffato – Inicialmente, quando eu recebi o convite, aliás um convite insistente do saudoso Aurélio, eu não imaginava voltar a correr, até porque eu vinha de um acidente grave e havia até um certo trauma na família, principalmente por parte da minha esposa e da minha filha. Eu titubeei um pouco, conversei com os filhos, até com netos, e acabou que não houve nenhuma restrição por parte deles para que eu voltasse a correr. Mas, no fundo, eu tinha um pouco de dúvida. Como havia, na época, corridas da Fórmula Três Sul-americana, das quais eu era comentarista na ESPN Internacional, e as etapas da Fórmula Três eram feitas junto com a Fórmula Truck, eu estava sempre por perto. E, na última, o Aurélio me desafiou insistentemente. Ia haver a etapa de Londrina, onde correria a Fórmula Truck e a Fórmula Três, e eu estaria lá como comentarista, mas o Aurélio já tinha me alertado: “Eu vou levar um caminhão pintado já com o teu nome e você vai ter que correr. Venha preparado!”. Eu falei: “Aurélio, de jeito nenhum, não faça isso, porque eu não quero correr”. Em Cascavel, eu havia andado com um dos caminhões da equipe do Aurélio, que era o caminhão do Wellington Cirino, e, segundo ele, eu virei um tempo muito bom. Eu não achei que aquele era um tempo bom, mas ele disse que eu largaria em quarto ou quinto se fosse em uma corrida. Mas, como eu fui para Londrina de carro, por qualquer dúvida coloquei o capacete, o macacão e a sapatilha no porta-malas do carro e, chegando lá, realmente estava o caminhão escrito com meu nome, tudo preparado para que eu corresse. Aí, ele falou: “Taí, você vai encarar ou vai me deixar na mão?”. Eu falei: “Olha, Aurélio, com todo respeito que eu tenho por você, porque você é um grande empreendedor e está fazendo uma categoria muito importante para o automobilismo brasileiro, uma categoria forte, então eu vou fazer essa competição, mas eu vou fazer essa, somente essa, e não traga mais o caminhão, porque eu não vou correr”. Aí veio o caminhão, eu fiz os treinos com o caminhão com algum problema, porque eu não conseguia virar tempo e eu falei: “Realmente, eu não sou do ramo de correr com caminhão”. Mas daí eu comecei a andar com um tempo alto e ruim e eu falei por Aurélio: “Você me trouxe um caminhão dessa natureza para correr? Um caminhão ruim?”. Daí ele veio olhar o caminhão e disse: “Olha, você não sabe o que aconteceu. Era para ser de 12 litros e colocaram um motor de 9 litros”. E eu: “Poxa, mas não tem sacanagem pior”. Ele: “Não, mas faça essa corrida agora que depois nós vamos consertar”. E aí até apareceram alguns gozadores, como o Djalma Fogaça, o Cabeção, que falou: “Com dez voltas ou doze voltas, eu vou te dar uma volta com você virando desse jeito aí”. E eu falei: “Você não vai dar volta nenhuma”. E então largou e eu, na primeira volta, já fui para o boxe e, quando os mecânicos chegaram, perguntaram o que tinha acontecido e eu respondi: “Nada, estou devolvendo o caminhão, porque isso aqui não presta”. Aí o Aurélio pediu mil desculpas e falou: “Na próxima, o caminhão vai competitivo, eu vou trocar o motor. Imagine um caminhão de 9 litros para 12 litros, é 30 por cento menos”. Aí eu tive que fazer a segunda para provar que eu não era tão ruim. Então, eu fiz a segunda lá em Tarumã e já larguei em décimo primeiro e acho que terminei em sétimo ou oitavo, não lembro direito. Aí começou o papo de “você vai correr!”. Aí começou a minha história na Fórmula Truck.

Pedro Muffato (6)CeC –  Falando da sua ligação com a Fórmula Truck, quais foram os maiores desafios que você e a categoria enfrentaram?

PM – Primeiro, foi essa história de eu voltar a correr, porque eu já tinha pendurado as chuteiras, como se fala no jargão esportivo. Mas aí eu voltei a correr e depois passou um tempo e eu senti que eu queria fazer um caminhão, porque eu achava que podia fazer melhor, até porque o Aurélio tinha muitos caminhões na equipe dele e, normalmente, a atenção era maior para os pilotos que estavam lá juntos, trabalhando juntos, e eu acabei entrando em outro desafio e voltei a fazer equipe, coisa que eu já tinha prometido para mim mesmo que nunca mais ia mexer, mexer com equipe, com mecânicos, enfim, com uma equipe de competição. E eu voltei tudo como antes, formando a equipe.

Pedro Muffato (9)CeC –  Nesses quinze anos de categoria, que avaliação você faz dela?

PM –  Eu digo e repito para todo mundo: Para mim, o Aurélio foi o maior promotor do automobilismo brasileiro, porque eu estou aí há quase 50 anos nesse meio e já vi algumas categorias subirem como um fogo de palha em um, dois ou três anos e acabavam, porque eram mal dirigidas, eram mal administradas e o regulamento era mal feito. E o Aurélio conseguiu fazer uma categoria que, a princípio, eu mesmo imaginei que logo acabaria, porque era só uma novidade ter caminhões na pista. E não! O Aurélio, pela competência e pela vontade que tinha de fazer as coisas, foi realmente incrementando cada vez mais. Quando eu entrei, ela já era grande, depois, ela ficou enorme, porque ele era, realmente, uma pessoa diferenciada. O Aurélio era um sujeito genioso, era nervoso, era bravo e eu tive desentendimentos com ele, porque, para ele, aquilo lá era vida e morte e ele queria tudo perfeito e, muitas vezes, ele agredia a gente e eu respondia meio na altura e dizia para ele: “Aurélio, você pode continuar me dando chute na canela, porque eu levei muitos tapinhas nas costas de pessoas que não eram competentes e que deixaram as coisas morrerem. Você está fazendo, está realizando, pode continuar assim que não tem problema”. Até que, em uma ocasião, nós tivemos um desentendimento em São Paulo. É que eu também tinha a Master, que fazia as produções para a TV com a geração das imagens, e um dia eu cheguei lá na quinta-feira à noite e ele estava indignado, porque o pessoal não tinha chegado para montar. Ele estava espumando, metendo a boca, querendo cancelar o contrato e eu falei: “Não, Aurélio, você não fica nervoso não que nós cancelamos o contrato, se você quiser eu já mando o pessoal ir embora agora”. Daí eu continuei: “Aí você vê se arranja alguma pessoa para fazer domingo, porque eu já vou embora, eu, o pessoal da equipe, da competição e da TV que está aí para fazer as imagens. Só que, se você não achar, eu faço até domingo, mas é a última. Eu já não corro desde já“. Inclusive, já era quinta à noite e, depois, ele veio cedo pedindo desculpas, porque ele estava nervoso e tal. Aí, ele vinha e chorava. Era peculiar dele, ele vinha, abraçava e chorava que nem criança, era um cara muito emotivo nesse ponto. Mas o Aurélio está fazendo falta. Para mim, a categoria não é mais a mesma, ela já esteve bem mais forte. Hoje, existe uma dificuldade. Eu não quero muito entrar no mérito, até porque hoje eu ainda faço parte da categoria, mas não é mais a mesma que era anteriormente. Eu sei que a Neuza vem lutando bastante, mas a categoria está com dificuldades.

Pedro Muffato (5)CeC –  Qual a expectativa para a temporada 2015, pelo fato de você estar na companhia do Davi na mesma equipe?

PM –  A minha expectativa não muda muita coisa. A única coisa que muda agora é que a gente tem dois caminhões e é mais complicado. Até, se o Davi não viesse mais correr na equipe, eu não queria um segundo piloto, porque é complicado. Até pela estrutura que tem uma equipe, precisaria ter mais gente do ramo. E é complicado hoje para se ter gente competente, gente preparada para participar de um Fórmula Truck, que é um pouco diferente de um carro pequeno. É muito grande, é muito pesado e a mão de obra está, realmente, muito complicada. Mas o Davi veio e estamos fazendo uma temporada juntos, estamos iniciando com alguns problemas, não da equipe, mas sim até do próprio regulamento. A Scania, a qual nós temos na equipe, está tendo uma certa dificuldade, porque o regulamento não é muito favorável para o lado dos caminhões Scania, coisas que não aconteciam com o Aurélio, porque ele sabia fazer muito bem as coisas para que houvesse uma equiparação e, com isso, havia muito mais igualdade. Então, chega a dar um pouco de desânimo, porque está sendo desigual. Por exemplo, a equipe Volkswagen está com muita vantagem. Antes era a Mercedes. Então, não está sendo bem equalizado. Isso, para mim, está desmotivando um pouco, mas vamos à luta agora, porque o Davi está aí, está junto e a gente tem até dado uma atenção especial para o carro dele para ver se ele faz uma temporada boa.

Pedro Muffato (00)CeC –  Quando você descobriu que também se dedicaria à carreira de piloto?

PM – É uma história interessante. Primeira coisa, eu sempre gostei de esportes, e sempre gostei de competição, de competir. Tentei até jogar um futebolzinho, aquele amador, mas eu só jogava porque arrumava uma camisa e acabava entrando no time. Mas não era bem minha área, não era bem meu campo, não era bem minha praia como se fala, mas eu comecei a competir, aí surgiu, em Cascavel, a primeira corrida, que eu não participei, porque houve um desafio dos cascavelenses e dos gaúchos porque não tinha nem carro para andar, imagina para correr. Mas, depois, na terceira corrida que teve em Cascavel, eu fui de copiloto e comecei a competir, porque eu sempre gostei, eu sempre andei de carro e de caminhão. E eu acabei entrando, competindo e deu certo, terminamos bem a corrida, ficamos, não lembro bem se em quarto ou quinto lugar, não lembro direito, porque eu não sou muito chegado a esses números e a estatísticas, não sou muito de guardar essas coisas. Enfim, chegamos bem e, na próxima corrida, me disseram: “Você vai correr, você tem que correr, porque você foi muito bem naquela”. Daí então, eu arrumei um carro, comprei, na época, um Simca Emi-Sul, e acabei ganhando. Foi onde tudo começou. Fui correndo quando aparecia uma corrida, porque eram poucas corridas no ano e depois comecei no campeonato paranaense, depois no campeonato brasileiro, depois não parei mais.

Pedro Muffato (01)CeC –  Se você pudesse, o que você não repetiria na carreira do Esporte Motor?

PM – Eu acho que nada! Eu fiz muita amizade, fiz muitos amigos, conheci muitas partes do mundo graças ao automobilismo. Agora diminuiu um pouco, porque eu não viajo tanto, mas na época da Fórmula Três eu viajava muito para a Europa, para os Estados Unidos. Eu tinha amigos em todas as partes. Não contado com a América do Sul, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, no Chile, na Colômbia, na Venezuela. A gente fez muita amizade com esse pessoal do México, tudo graças ao automobilismo. Aqui no Brasil, eu tenho grandes amigos até hoje. Não dá nem para citar nomes, porque eu não iria conseguir lembrar de tantos. Enfim, é um fábrica de se fazer amigos e, para mim, a melhor coisa que a gente tem na vida são bons amigos.

Pedro Muffato (12)CeC –  Como é se manter competitivo aos 74 anos e motivado a cada etapa?

PM –  Tem que ter uma motivação! Então, sempre que eu entro, mesmo sabendo que eu não tinha a mínima chance, eu entro pensando que posso, pensando que pode dar certo, que pode melhorar. Eu até vou citar a última etapa, em que eu achei que o caminhão estava muito ruim. Logo no começo da prova, meu caminhão estava bom, estava competitivo e aquilo já dá uma revigorada no teu ânimo. E, quanto à idade, por enquanto eu ainda não estou sentindo. Eu até brinco com o pessoal dizendo que só acho que estou ficando velho quando me olho no espelho, porque eu sinto que eu tenho a mesma cabeça que eu tinha quando eu comecei, eu sinto a mesma vontade. É lógico que eu tenho um pouco mais de cuidado com a parte física, porque aliás eu sempre me cuidei. Eu tive esse acidente gravíssimo na Fórmula Três e, se eu não tivesse saúde, eu já tinha ido embora naquela época. Então, eu tinha saúde e gastei na hora que foi necessário. Até hoje, depois que eu já fiz algumas palestras e por aí mesmo falando com muita gente, a primeira coisa que eu digo é: “Olhe, guarde a saúde enquanto tem, para gastá-la na hora necessária”. Porque, às vezes, a pessoa vai abusando, não vai se cuidando, e quando tem qualquer probleminha acaba sucumbindo, porque não tem reserva de saúde. E é o que eu tenho. Eu tenho uma certa reserva na parte física e isso vai muito da cabeça. Durante a competição você tem que saber dosar a sua energia, o preparo que você tem. Você não pode gastar tudo, mas isso a gente só consegue com o tempo, com a experiência, e quando você vai mentalizando isso durante uma competição para você ter condições físicas de chegar ao final da corrida. Por exemplo, na corrida passada eu não senti cansaço nenhum, mesmo tendo forçado muito nas curvas, porque o motor estava falhando. Mas eu nem cheguei a pensar que eu estava cansado. Então, eu acho que a pessoa, mesmo com a idade, tem que se manter ativo, isso é importante. Você tem que estar se movimentando, se não começa a travar tudo. Eu ainda estou conseguindo me movimentar, não sei até quando, mas eu vou indo.

Pedro Muffato (1)CeC –  Há espaço para medo nas pistas? Como aliar risco e competitividade? Ou jamais essas duas palavras poderiam ser unidas no automobilismo? Medo e risco.

PM – Medo não. Risco sim, porque já é um esporte de risco o automobilismo, porque, daqui a pouco, pode ter uma falha mecânica. Mas o acidente que eu sofri não foi por falha mecânica, foi por imprudência de outros pilotos. Aquele, na Fórmula Três, me jogou o carro em cima, que aliás eu nem tenho gravado porque a gente apaga com o tempo, mas foi. Pelo que os outros disseram, foi um local absurdo onde ele tentou passar. Eu também quebrei os dedos na Argentina, quando um piloto tentou me passar em um lugar que era impossível e me jogou contra o muro. Então, eu já sofri alguns acidentes por imprudência, por imperícia. Não digo nem que seja por maldade. Na hora, a gente fica até irritado e fala muita besteira, mas é o caso de se rever. Às vezes, as pessoas que estão competindo não têm competência. Às vezes, até não é culpa dele, é culpa de quem dá autorização para ele correr. Então, existe risco em decorrência disso, de uma falha mecânica ou de uma imprudência do outro competidor. Agora, medo não existe. Se eu tivesse medo, eu já tinha parado de correr há muito tempo.

Pedro Muffato (2)CeC –  A propósito de acidentes, eu tive a oportunidade de conversar com o Senhor no ano passado, em São Paulo, e falamos na falta de rigor nas punições para quem abusa dentro das pistas. Após aquela entrevista, vi que parece não ter fim a falta de rigor dos comissários, sobretudo no Kart, onde alguns pilotos insistem em algumas atitudes questionáveis e, após prejudicar alguns adversários, acabam tomando apenas poucos segundos como punição. Será que precisamos de um acidente grave para que a CBA e as federações possam cobrar, enfim, rigor dos comissários e das direções de prova?

PM – Olha, eu sempre critiquei, falo nos briefings e até me indisponho com alguns comissários, principalmente os desportivos, porque tem que ser mais rigoroso, pois é quase aquela história de que “violência gera violência”. Eu já vi, muitas vezes, piloto que foi prejudicado e não aconteceu nada, aí chega na outra corrida, se ele tem oportunidade, ele quer dar o troco. Isso já aconteceu comigo também. Às vezes, na própria competição. Aconteceu uma vez de o cara me tirar para fora e não acontecer nada, daqui a pouco eu vou tentar dar o troco também, porque você está com o sangue quente e acaba cometendo também uma imprudência. Então, falta rigor dos comissários, mas eu não sei se falta mesmo rigor ou se falta competência. Eu acho que a CBA teria que ter um cuidado maior, teria que ter uma atenção maior, porque senão você vai formando pilotos despreparados. E também teria que ser mais rigorosa na preparação dos pilotos, não dar a carteira para eles. Eles têm que merecer a carteira por competência. Hoje, eu acho que a CBA procura, muitas vezes, faturar, vender a carteira. E isso eu falo porque as federações e a CBA são a mesma coisa e tem que pensar um pouco na segurança. Já houve, aqui no Brasil, algumas mortes, mas não foi por conta de imprudência, foi por outros motivos. Mas, daqui a pouco, pode ser que, por conta de alguma dessas imprudências que não tenham punição, aconteça alguma fatalidade. Tem que haver mais rigor, tem que ser mais enérgico, te que punir melhor e não é só colocar lá 10 segundos, 20 segundos, um drive trough. Conforme a penalidade, tem que ser suspenso, por uma ou por duas corridas se for o caso. Eu acho que falta rigor realmente.

Pedro Muffato (7)CeC –  Por falar em CBA e federações, o Senhor acha que os pilotos e chefes de equipe não deveriam ser mais ouvidos e, até mesmo, ter um peso na escolha daqueles que representam administrativamente os verdadeiros atores do automobilismo? Digo isso pelo fato de termos uma falta de abertura, ao contrário de outros esportes, onde são ouvidos todos os envolvidos e esses podem escolher seus representantes.

PM – Existem dois fatores que devem ser considerados. Eu acho que a coisa tem que começar pelo automóvel clube, mas um automóvel clube onde tenha automobilismo, uma federação onde haja automobilismo. Então, o que é preciso ser feito, na minha opinião, é que os automóveis clubes sejam formados por pessoas da competição local, ou estadual, ou regional para eleger o presidente da federação, que depois vai eleger o presidente da Confederação. Realmente, a participação deve ser em debate, porque, se você colocar equipes ou pilotos diretamente numa eleição dessas, não funciona. Até pela própria experiência que eu tenho dentro das categorias, o piloto e, principalmente, as categorias querem fazer um regulamento, uma lei para favorecer a equipe deles e isso não funciona. O regulamento tem que ser feito numa formatação igual para todos. Isso eu vi no Sul-americano, onde eu briguei muito e depois passei até a ser muito respeitado e tomava algumas decisões. Nós elaborávamos todo o regulamento e passávamos para a Codasur, que administrava a Fórmula Três Sul-americana, e ela colocava em prática o que nós pedíamos, mas eu tive alguns problemas quando algumas equipes insistiam que aquilo era para beneficiar a equipe deles ou não.

252814_500893_363a5587_web_CeC – O automobilismo é algo caro, que precisa de apoio financeiro. Hoje, a busca de patrocínio é fundamental para a permanência de uma categoria competitiva como a Truck. Na sua avaliação, Senhor Pedro, falta uma política mais clara de incentivo fiscal ao automobilismo? Como um empresário pode investir no automobilismo? Há retorno?

PM – Hoje, é difícil alguém colocar dinheiro no início da formação de um piloto. A maioria que consegue patrocínio é piloto que já está andando, que já está andando bem, porque o empresário quer publicidade e quer retorno. Ninguém vai investir dinheiro para não ter retorno. Então, esse setor é um pouco complicado. É lógico que, por parte da confederação e das federações, eu acho que nós devíamos ter um sistema não só de apoiar, mas de formar categorias baratas para iniciantes. Aí uma categoria que era como a antiga Fórmula Ford, a Fórmula Super V, a Fórmula V, uma categoria inicial, igual para todo mundo, bem-feita e que não é cara para organização. Aí sim vai se ver quem é quem, tenha dinheiro ou não tenha dinheiro, ali vão andar os pilotos em igualdade de condições. Aí, pode surgir, então, algum destaque. Até porque Stock Car, Fórmula Truck, nessas categorias, não adianta mais querer botar piloto lá. Só entra quem tem dinheiro ou quem já tem um patrocínio e que vai para lá pronto. Agora, nós precisamos formar pilotos como era na Fórmula Três Sul-americana. É uma pena ter acabado, mas agora está voltando. Ela é, para mim, a melhor escola para tirar pilotos que estão iniciando e é a melhor maneira de dar oportunidade para aquele que quer iniciar. Faz uma categoria barata, um monoposto com motor barato, não precisa ser forte, que vai ser igual para todo mundo e aí, como eu falei antes, vai mostrar quem é quem.

PM2CeC –  Quanto à questão da segurança dos carros e autódromos, que avaliação o Senhor faz desse ponto? Aí eu volto a insistir na participação dos pilotos para ajuda nessas discussões. Qual a relevância da opinião dos pilotos nesse processo?

PM –  Para mim, segurança está em primeiro lugar. Felizmente, a maioria dos autódromos do Brasil são seguros, com área de escape que é o principal. Enfim, hoje, a maioria dos autódromos aqui têm boa estrutura. Eu, por exemplo, corri no Campeonato Sul-americano, Argentino, e em outros países, e enfrentamos cada autódromo aí que dava até medo de correr. Aqui não! Felizmente, nesse ponto, aqui no Brasil nós estamos muito bem em todos os sentidos na parte de segurança. Mas é essencial que o dirigente escute sempre o piloto. Aqui em Cascavel sempre me escutaram muito por parte da segurança no autódromo e, como em outros lugares, eu tenho dado palpite. Uma coisa que preocupa, sem dúvida nenhuma, é a segurança. Agora, é essencial ouvir pilotos, porque são eles que sabem onde que está o perigo, eles que sabem onde que pode acontecer o acidente fatal. Então, o piloto sempre deve ser ouvido.

Truck01CeC –  Sobre a importância da CBA na formação do automobilismo e sobre a ausência das montadoras na Fórmula Truck, de uma maneira geral, o que o Senhor tem a complementar?

PM – Bem, aí são duas coisas. Como eu já falei anteriormente, a CBA, para mim, seria a maior responsável, porque, com pouco dinheiro, ela consegue fazer uma categoria barata até para incentivar e organizar. Agora, quanto às montadoras, nós tivemos a saída de algumas da Fórmula Truck, e isso não acontecia na época do Aurélio, por isso que o Aurélio sempre faz muita falta e dá muita saudade, porque ele, realmente, era realizador, ia atrás, motivava, conseguia fazer com que tanto essas montadoras quanto os fabricantes de componentes permanecessem e contribuíssem para o desenvolvimento e o crescimento da categoria. Então, o Aurélio, realmente, faz muita falta na Fórmula Truck. Nós já tivemos a saída de várias montadoras, hoje nós temos poucas e eu sinto que elas não estão empolgadas. Por isso que seria importante uma ação por parte da categoria, principalmente pela direção, pela organizadora, de se fazer mais um trabalho de inclusão das montadoras, porque, no fundo no fundo, a Fórmula Truck é, para mim, o maior e melhor laboratório que tem não só para os fabricantes como para as próprias montadoras para medir a resistência, as condições e a capacidade dos seus equipamentos. Por isso, nós estamos testando muita coisa e eu vejo o pessoal tirando e testando tudo e isso é muito importante até para o nosso transporte. Então a Fórmula Truck está com uma certa dificuldade porque diminui a quantidade de montadoras no evento.

Muffato, Totti e BuenoCeC –  Que análise o Senhor faz do atual momento do automobilismo no Brasil? Há mais profissionalismo hoje?

PM – Eu acho que há. Nesse momento, tem a Stock Car que é, para mim, a categoria mais organizada e mais profissional. A Truck, para mim, vem em segundo lugar e, agora, eu estou até ficando contente, porque a Fórmula Três está voltando e, para mim, é a mais importante de todas as categorias, porque lá é um laboratório de se formar pilotos, que depois já podem sair daqui do Brasil. Com pouco dinheiro, mas já saem preparados para enfrentar uma Europa ou os Estados Unidos.

Agradecimento: Clóvis Grelak.

Fotos: Orlei Silva – Vanderley Soares/ Fernanda Freixosa/ Nobres do Grid/Arquivo pessoal do piloto/Divulgação.

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